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quinta-feira, 19 de abril de 2012



“For beauty is nothing but the beginning of terror
which we are barely able to endure, and it amazes us so,
because it serenely disdains to destroy us.
Every angel is terrible.”

 (Rainer Maria Rilke, Duino Elegies)

sábado, 12 de março de 2011

Dentro do espelho

(...)

E por fim viste-te a ti própria como um fruto,
despojaste-te dos teus vestidos, levaste-te
para diante do espelho, deixaste-te entrar
até ao teu olhar; isto ficou grande, à tua frente,
e não dizia: isto sou eu; não, antes: isto é.


(...)


(Rainer Maria Rilke, Requiem por uma Amiga, Maria Teresa Dias Furtado (trad.))

Que pedes?

(...)

E poderei eu dizer que tu apenas condescendes,
que por magnanimidade voltas, por excesso,
por estares tão segura, tão em ti própria,
que te moves como uma criança, sem medo
de lugares onde se faça mal a alguém - :
mas não: tu pedes. Isso penetra-me
até aos ossos e atravessa-me como uma serra.
Uma censura, de que tu fosses como um fantasma portadora,
a mim dirigida, quando de noite me recolho
nos pulmões, nas entranhas,
na última e paupérrima câmara do meu coração, -
semelhante censura não seria tão cruel
como é o teu pedir. Que pedes?

(...)


(Rainer Maria Rilke, Requiem por uma Amiga, Maria Teresa Dias Furtado (trad.))

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Tu num poema

You are the future,
the red sky before sunrise
over the fields of time.

You are the cock's crow when night is done,
You are the dew and the bells of matins,
maiden, stranger, mother, death.

You create yourself in ever-changing shapes
that rise from the stuff of our days --
unsung, unmourned, undescribed,
like a forest we never knew.

You are the deep innerness of all things,
the last word that can never be spoken.
To each of us you reveal yourself differently:
to the ship as coastline, to the shore as a ship.


( beloved Rainer Maria Rilke, The Book of Pilgrimage)





Um obrigada ao ser que me ficou com As Elegias de Duíno. É preciso agradecer também há criatura que tem o livro de Whitman.


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

*23

A existência do terrível em cada partícula do ar. Tu respira-lo com a sua transparência: mas ele condensa-se em ti, endurece, assume formas pontiagudas e geométricas entre os orgãos; pois todas as torturas e terrores cometidos em lugares de suplício, nas câmaras de tortura, nos manicómios, nas salas de operações, debaixo dos arcos das pontes no fim do Outono: tudo isso é de uma resistente intemporalidade, tudo subsiste e se agarra, ciumento daquilo que é, à sua terrível realidade. As pessoas gostariam de poder esquecer muitas dessas coisas; o seu sono lima suavemente esses sulcos no cérebro, mas os sonhos expulsam-no e sublinham os seus desenhos. E elas acordam, ofegantes, e deixam diluir-se no escuro o brilho de uma vela e bebem como se fosse água açucarada este calmante semiclaro. Mas, ai, em que aresta resiste esta segurança? Basta o menor dos movimentos e já o olhar ultrapassa as coisas conhecidas e amigas, e o contorno ainda agora tão tão consolador precisa-se como uma orla de terror. Abriga-te da luz que torna mais vazio o espaço; não olhes à tua volta para ver se alguma sombra acaso se ergue atrás da tua vigília com teu senhor. Mais teria valido teres permanecido no escuro e o teu coração ilimitado ter tentado ser o coração pesado de tudo o que é indistinto. Agora que todo te recolheste em ti, sentes-te terminar nas tuas mãos, refazes, de tempos a tempos, o contorno do teu rosto com um movimento impreciso. E em ti quase não há espaço; e quase te apazigua o facto de, nesta tua tristeza interior, não ser possível deter-se qualquer coisa muito grande; o facto de mesmo o inaudito ter de se interiorizar e de se adaptar às circunstâncias. Mas lá fora, lá fora tudo é desmedido. E quando lá fora o nível sobe, também em ti ele se eleva, não nos vasos que em parte estão em teu poder, ou no fleuma dos teus orgãos mais impassíveis: eleva-se nos capilares, aspirado para cima em canais até às últimas ramificações da tua existência infinitamete ramificada. Aí se ergue, aí te ultrapassa, alcança mais alto do que a tua respiração, na qual te refugias como num último reduto. Ai, e agora para onde ir, para onde ir? O teu coração expulsa-te de ti mesmo, o teu coração persegue-te, e tu estás quase fora de ti e já não podes regressar. Como um escaravelho que se pisa, assim tu escorres dentro de ti, e a tua pequena parcela de dureza exterior e de adaptação não faz qualquer sentido.

(...)

( Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Brigge)