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terça-feira, 30 de agosto de 2011

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"Compreendia que agora era ela que ia cair no abismo. Viu que, quando as raízes se rompessem, não se poderia agarrar a mais nada, nem mesmo a si própria. Pois era ela própria o que ela agora ia perder."



(Sophia de Mello Breyner Andressen, "A viagem", in Contos exemplares)


Vou, finalmente, para o outro lado. Do espelho, do desejo, do mundo. Para longe de mim.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Eurydice



Este é o traço que traço em redor do teu corpo amado e perdido
Para que cercada sejas minhas


Este é o canto do amor em que te falo
Para que escutando sejas minha


Este é o poema — engano do teu rosto
No qual eu busco a abolição da morte



(Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética III)

domingo, 23 de janeiro de 2011

Sirvo para que as coisas se vejam

Esta manhã é igual ao princípio do mundo e aqui eu venho ver o que jamais se viu.
O meu olhar tornou-se liso como um vidro. Sirvo para que as coisas se vejam.



(Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Porque pertenço à raça daqueles que percorrem o labirinto, sem jamais perderem o fio de linho da palavra

O Minotauro

Em Creta
Onde o Minotauro reina
Banhei-me no mar

Há uma rápida dança que se dança em frente de um toiro
Na antiquíssima juventude do dia

Nenhuma droga me embriagou me escondeu me protegeu
Só bebi retsina tendo derramado na terra a parte que pertence aos deuses

De Creta
Enfeitei-me de flores e mastiguei o amargo vivo das ervas
Para inteiramente acordada comungar a terra
De Creta
Beijei o chão como Ulisses
Caminhei na luz nua

Devastada era eu própria como a cidade em ruína
Que ninguém reconstruiu
Mas no sol dos meus pátios vazios
A fúria reina intacta
E penetra comigo no interior do mar
Porque pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos
E reconhecem o abismo pedra a pedra anémona a anémona flor a flor

E o mar de Creta por dentro é todo azul
Oferenda incrível de primordial alegria
Onde o sombrio Minotauro navega

Pinturas ondas colunas e planícies
Em Creta
Inteiramente acordada atravessei o dia
E caminhei no interior dos palácios veementes e vermelhos
palácios sucessivos e roucos
Onde se ergue o respirar da sussurrada treva
E nos fitam pupilas semi-azuis de penumbra e terror
Imanentes ao dia –
Caminhei no palácio dual de combate e confronto
Onde o Príncipe dos Lírios ergue os seus gestos matinais

Nenhuma droga me embriagou me escondeu me protegeu
O Dionysos que dança comigo na vaga não se vende em nenhum mercado negro

Mas cresce como flor daqueles cujo ser
Sem cessar se busca e se perde e se desune e se reúne
E esta é a dança do ser

Em Creta
Os muros de tijolo da cidade minoica
São feitos com barro amassado com algas
E quando me virei para trás da minha sombra
Vi que era azul o sol que tocava o meu ombro

Em Creta onde o Minotauro reina atravessei e vaga
De olhos abertos inteiramente acordada
Sem drogas e sem filtro
Só vinho bebido em frente da solenidade das coisas –
Porque pertenço à raça daqueles que percorrem o labirinto,
Sem jamais perderem o fio de linho da palavra

(Sophia de Mello Breyner Andresen, Dual, Obra Poética III)

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Navegações

Difícil é saber de frente a tua morte
E não te esperar nunca mais nos espelhos da bruma

(Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética III)